domingo, 30 de setembro de 2012

THE KILLERS COMEMORA 10 ANOS COM ÁLBUM ÉPICO E BALADEIRO


Em 2002, em Las Vegas, nos Estados Unidos, os garotos Brandon Flowers (vocais, sintetizador e composição), Dave Keuning (guitarra e vocal de apoio), Ronnie Vannucci (bateria) e Mark Stoermer (baixo e vocal de apoio) formavam uma das mais importantes bandas do cenário indie – The Killers. Dez anos depois e com uma ausência de três anos dos estúdios, eles lançam o quarto, “Battle Born”.



O álbum começa com a eletrônica e épica “Flesh and Bone”, que poderia muito bem fazer parte da trilha musical daqueles clássicos filmes de verão dos Estados Unidos, e, em alguns momentos, remete ao David Bowie dos anos 70: “I’ve gone through life / White-knucled in the moments that left me behind / Refusing to heed the yield, / I penetrate the force fields in the blind / They say I’ll adjust / God knows I must / But I’m not sure how / This natural selection picked me out to be / A dark horse running in a fantasy” (“Eu passei por essa vida assustado / Nos momentos que me deixaram para trás / Se negando a dar atenção ao lucro / Eu penetrei os campos de força no escuro / Eles dizem que eu vou me adaptar / Deus sabe que eu preciso / Mas eu não sei como / Essa seleção natural leva-me a ser / Um cavalo preto correndo na imaginação”). Trata-se praticamente de um tratado de princípios da banda.
Em seguida, é a vez da balada contagiante “Runaways”, na qual a associação com Bruce Springsteen é imediata e que foi o primeiro single desse novo trabalho dos Killers: “The teenage rush, she said / Ain’t we all just Runaways? We got time / But that ain’t much / We can’t wait ‘till tomorrow” (“A pressa adolescente, ela disse / Não somos todos nós apenas fugitivos? Nós temos tempo / Mas não tanto assim / Não podemos esperar até amanhã”). Lembra aquelas baladas que agitavam as rádios FMs na década de 80? Pois é justamente o clima da ótima e – convenhamos – um pouco brega “The Way It Was”. Já “Here With Me” deve tocar bastante no rádio e embalar romances juvenis mundo afora:
Se “Matter of Time” retorna ao tom mais épico do álbum, “Deadlines and Commitments” parece ser a canção mais despretensiosa do álbum e convence justamente por isso e pelo ar eletrônico retrô: “I’m not talking about / Deadlines and commitments / Sold out of confusion / There is a place / Here in the house / That you can stay” (“Eu não estou falando de / Prazos e compromissos / Esgotado de confusão / Há um lugar / Aqui em casa / Onde você pode ficar”). Igualmente belas são a dançante “Miss Atomic Bomb”, a empolgante “The Rising Tide” e a calminha “Heart of a Girl”.
Para completar, há o country rock “From Here On Out”, a acachapante “Be Still” (talvez a melhor faixa do álbum e novamente com referências a Bruce Springsteen) e a ótima e épica faixa-título, “Battle Born”: “You lost faith in the human spirit / You walk around like a ghost / Your star-spangled heart / Took a train for the coast / When you shine your hilltop mansion / So how’d you lose the light? / Was it blown by the Wind / In the still of the night? / We’re up against the wall” (“Você perdeu a fé no espírito humano / Você anda por aí como um fantasma / Seu coração estrelado / Peguei um trem para o litoral / Quando você brilhar sua mansão no morro / Então, como você perdeu a luz? / Foi algo soprado pelo vento / Na calada da noite? / Nós estamos contra a parede”).



The Killers completa dez anos de carreira, com um ótimo álbum, “Battle Born”, em que os rapazes aparecem mais refinados, com canções bastante agradáveis e prontas para embalar os corações adolescentes, como o bom pop rock sempre precisa ser. Assim, deixe-se embalar pelas bonitas e criativas melodias do quarteto e preste atenção também nas letras e no ótimo projeto gráfico desenvolvido por Warren Fu, com destaque para a capa que mostra o desenho de um carro a toda velocidade na estrada, vindo em direção a um cavalo negro, o tal mencionado na faixa que abre o álbum.

domingo, 23 de setembro de 2012

"BARCELONA", O MELHOR ÁLBUM OLÍMPICO, GANHA EDIÇÃO ESPECIAL 30 ANOS DEPOIS

Quando Barcelona foi selecionada para ser a cidade sede dos Jogos Olímpicos de 1992, o cantor e compositor Freddie Mercury, líder da banda britânica de rock Queen, resolveu se juntar a uma das personalidades mais prestigiadas do local, a soprano espanhola Montserrat Caballé, e gravar um álbum chamado justamente “Barcelona”, lançado em 1988. Pena que Mercury não teve a oportunidade de presenciar o evento, pois faleceu em 24 de novembro de 1991, em decorrência do vírus da AIDS. Agora, mais de duas décadas depois, o disco volta à tona numa edição especial.



O tom épico da faixa-título, que abre o álbum, tratado como uma grande ópera, já é consagrador. É impossível não ficar com a deslumbrante sensação de estar diante de algo magnífico e de grande importância para a história da música mundial. Afinal, é a união definitiva da música pop mundial com a erudita, embrulhada com um refinamento poucas vezes ouvido. Ainda mais nessa nova edição, que conta com orquestração de Stuart Morley (responsável pelo musical “We Will Rock You”), executada pela FILMharmonic Orchestra de Praga, e com percussão ao vivo, ao invés dos sintetizadores e das baterias eletrônicas do álbum original. Há também nova capa e ilustrações.

Na canção, que conta com violinos de Homi Kanga e Laurie Lewis, cello de Deborah Ann Johnston e percussão de Frank Ricotti, “Barcelona” é tratada como uma linda mulher. “I had this perfect dream / Un sueño me envolvió / This dream was me and you / Tal vez está aqui / I want all the world to see / Un instinto me guiaba / A miracle sensation / My guide and inspiration / Now my dream is slowly coming true” (“Eu tive esse sonho perfeito / Um sonho que me envolveu / Nesse sonho estavam você e eu / Talvez esteja aqui / Quero que o mundo todo veja / Um instinto me guiava / Uma sensação milagrosa / Minha guia e inspiração / Agora meu sonho lentamente vai se tornando verdadeiro”). Já “La Japonaise” começa com letra em japonês e possui partes cantadas em falsete por Freddie Mercury e uma doce delicadeza, que contrasta com o tom mais sombrio e desesperado de “The Fallen Priest”, que conta com o piano de Mike Moran e ganhou letra do dramaturgo Tim Rice.

Em seguida, vem a doce “Ensueño”, uma das faixas mais delicadas e tocantes do álbum, toda cantada em espanhol e na qual o contraponto entre as vozes de Freddie Mercury e Montserrat Caballé é deslumbrante e pontuado pelo piano tocado pelo próprio cantor. Essa também é a única faixa que conta com a participação de Caballé na composição, junto com Mercury e Mike Moran, autores de todas as outras. E retoma a temática do sonho: “Volver a vivir / Saber que mi suenyo no esta solo / Alienta em ti / Tu y yo cantando los dos / Yo sonyaba en ser tu mismo mar, / tu mar es puente de unión... / De nuestras almas / Vuelan... / nos llaman... / Al son de eternidad” (“Voltei a viver / Por saber que meu sonho não está só / Está com o teu / Tu e eu cantando, os dois / Eu sonhava em ser mesmo teu mar, teu mar / A ponte de união / De nossas almas / Voltam e nos chamam / Ao som da eternidade”.





“The Golden Boy”, outra canção com letra de Tim Rice, começa tensa, mas, aos poucos, vai se rendendo à doçura dos dois intérpretes e a um apoteótico coral gospel (formado por feras como Madeline Bell, Dennis Bishop, Lance Ellington, Miriam Stockley, Peter Straker, Mark Williamson e Carol Woods), e que conta, inclusive, com uma salva de palmas, e, no final, retorna um pouco ao clima soturno. Outro ápice é a doce “Guide My Home”, que é unida sem interrupção à canção mais conhecida e admirada desse álbum, “How Can I Go On”, que conta com o baixo de John Deacon e aparece em duas versões, a segunda com a participação do violinista David Garrett. O encerramento é com a delicada “Exercises In Free Love” e a épica “Overture Piccante”, que conta com a citação de todas as outras faixas.

Como indica o encarte do CD, a paixão de Freddie Mercury pela música erudita começou quando viu Luciano Pavarotti interpretar “Un ballo in maschera”, de Giuseppe Verdi, na Royal Opera House, em Londres, na Inglaterra, em 1981. Trinta e um anos depois, o álbum “Barcelona” permanece emocionando e esbanjando extremo vigor, como uma obra indispensável de união do rock com a música erudita, algo do quilate, por exemplo, da ópera-rock “Tommy”, realizada pela banda The Who, em 1969. “É, finalmente, o álbum que deveria ter sido. O mundo, sem dúvida, redescobrirá e se apaixonará por tudo isso de novo. A única desvantagem é que o visionário por trás desta obra-prima não está por perto para ouvi-la também”, finaliza Rhys Thomas, no encarte.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

JAPANDROIDS – O ROCK POTENTE E CONTAGIANTE QUE VEM DO CANADÁ

           Os garotos Brian King e David Prowse moravam em Vancouver, na parte britânica do Canadá, em 2006, quando resolveram fazer músicas juntos. O primeiro assumiu a guitarra e os vocais, e o segundo os vocais e a bateria. Assim nasceu o ótimo dueto Japandroids, que, em 5 de junho, lançou mundialmente o segundo álbum, “Celebration Rock”. O primeiro havia sido “Post-Nothing”, gravado no verão de 2008 e lançado no início de 2009. Em 2010, dois EPs foram compilados no CD “No Singles”.



           O disco começa com a potente “The Nights Of Wine and Roses”, que dialoga com várias bandas indies das décadas de 1990 e 2000. Em seguida, é a vez de “Fire’s Highway”, que conta com eletrizantes solos de guitarra, a marcação pesada da bateria e remete ao Coldplay. Já a referência de “Evil’s Sway” parece ser o pós-punk de Manchester, com sua paisagem ácida: “Tudo o que vejo é vermelho sexual / Os últimos raios irromperam entre os vagões do trem / E brilham diretamente sobre minha cabeça” (“The sun lays low on a solemn city / All I see is sexual red / The last rays burst through between the train cars / And shine directly on my head”). 
As letras foram todas compostas por Brian King. A exceção é o cover de “For The Love of Ivy”, composta por Pierce e Kid Congo Powers, da banda californiana de punk blues The Gun Club, que a gravou no álbum “Fire Of Love”, de 1981. O punk rock californiano, mas da década de 1990, marcado por bandas como Green Day, é a inspiração para a ótima “Adrenaline Nightshift”, uma das melhores faixas do disco “Celebration Rock”. 
“Younger Us” merece pelo menos entrar na trilha desses seriados adolescentes, com seu instrumental potente e letra melancólica: “Lembra quando nós tínhamos todos eles em fuga / E à noite nós vimos o sol da meia-noite / Lembra de dizer coisas como nós vamos dormir quando estivermos mortos / E de pensar que este sentimento nunca iria acabar” (“Remember when we had them all on the run / and the night that we saw the midnight sun / remember saying things like we’ll sleep when we’re dead / and thinking this feeling was never going to end”).
Mas a primeira faixa de trabalho é “The House That Heaven Built”, que empolga o suficiente para o ouvinte querer repeti-la no volume máximo por várias vezes. Ela ganhou um ótimo videoclipe em preto e branco dirigido por Jim Larson, que mostra como o dueto se apresenta nos shows e estreou em 12 de agosto. Mesma sensação é provocada pela mais romântica “Continuous Thunder”, que encerra o disco.
“Celebration Rock” demonstra a extrema qualidade do dueto de Vancouver, que dialoga com várias referências do punk rock do passado para criar uma sonoridade própria, que merece fazer parte da trilha musical das novas gerações e, em pouco tempo, tornar-se fonte de inspiração para outros artistas. Eis a prova cabal de que há rock da melhor qualidade sendo feito nas diferentes partes do mundo. Termina com uma espécie de queima de fogos.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Banda paraense prepara primeira ópera rock da Amazônia

A relação entre ópera e rock não é nova, mas nem por isso é fácil. Músicos e bandas corajosos já compuseram óperas rock conhecidas pelo mundo afora, como “The Wall”, do Pink Floyd; a sombria “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, de David Bowie; e “Tommy”, do The Who. No Norte do Brasil, uma banda aceitou o desafio de fazer a primeira ópera rock da região: o Álibi de Orfeu. Criada no final da década de 1980, a formação atual do grupo conta com Elaine Valente e Rafael Mergulhão nas guitarras, Sidney KC (baixo), Rui Paiva (baterista e líder da banda, que está desde a primeira formação) e Norah Valente (vocalista), prodígio de 17 anos que desde maio está à frente do Álibi.
A ideia da ópera não é recente, vem desde 2010 e ganhou fôlego com a aprovação do projeto em uma lei municipal de incentivo a projetos culturais, no ano passado. Segundo Rui Paiva, a banda está trabalhando em quatro frentes, “a das composições, isto é, da banda mesmo, da orquestra que vai ser necessária e o grupo teatral que encenará a ópera e terá autonomia pra adaptar as composições. Estamos trabalhando também na captação de recursos, afinal uma ópera como essa não é barata e pretendemos viajar com ela não somente pelo Pará, mas para fora dele. O pessoal de fora tem que conhecer o que fazemos e pensamos aqui também”, diz o baterista ao se referir a alguns dos problemas que serão discutidos, como o desmatamento feito por grandes madeireiras, poluição, tráfico de drogas e exploração sexual, seja no interior ou em Belém.

Álibi de Orfeu aposta na mistura de mitos amazônicos e a realidade urbana de Belém para criar a primeira ópera rock da Amazônia. Foto: Victor Estácio
 
O enredo da ópera, escrita pelo próprio Rui Paiva, conta a história de Selmita, jovem de 16 anos que sai de um dos “furos” (entradas) do arquipélago do Marajó, interior do Estado do Pará, em direção a Belém para encontrar uma tia. Desde a viagem, feita somente de navio, a heroína se vê em meio a embates identitários, psicológicos e outros que a nova vida na cidade com traços de metrópole incita. Diversos personagens que estão na ópera são baseados em mitos amazônicos: Curupira, Iara, Boto, Cobra Grande, entre outros, estão presentes, não de modo fantástico, mas sim cotidiano, através de releituras e adaptações.
Segundo Rui Paiva, a ópera terá cerca de onze ou doze canções, como “Verde Mar”, “Chão e Fé”, “Longe de ti” e “Passou e não me viu”, que inicia com a batida de lundu marajoara e termina como um hard rock. O videoclipe, lançado em maio deste ano, possuiu uma boa repercussão e pode ser visto no YouTube. A banda lançará nos próximos meses outro videoclipe de uma das canções da ópera. Todas as composições são “criações coletivas”, em que todos os membros da banda interferem e colaboram na produção das canções. Além disso, as canções podem ganhar convidados especiais, sejam paraenses ou não, afirma Rui, que tem como amigos Edgar Scandurra e Frejat.
A previsão é que o álbum da ópera seja lançado ainda este ano e já mostrará Selmita percorrendo uma Belém que muitas vezes não se observa, conhecendo, mais que seus pontos turísticos, a dura realidade de seus problemas. O desfecho da história, no entanto, ainda é mantido em segredo: “só quando lançarmos vocês vão saber”, conta misteriosamente Rui Paiva. Resta aguardar para ver e ouvir.