A relação entre
ópera e rock não é nova, mas nem por isso é fácil. Músicos e bandas corajosos
já compuseram óperas rock conhecidas pelo mundo afora, como “The Wall”, do Pink
Floyd; a sombria “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from
Mars”, de David Bowie; e “Tommy”, do The Who. No Norte do Brasil, uma banda
aceitou o desafio de fazer a primeira ópera rock da região: o Álibi de Orfeu.
Criada no final da década de 1980, a formação atual do grupo conta com Elaine
Valente e Rafael Mergulhão nas guitarras, Sidney KC (baixo), Rui Paiva
(baterista e líder da banda, que está desde a primeira formação) e Norah
Valente (vocalista), prodígio de 17 anos que desde maio está à frente do Álibi.
A ideia da ópera
não é recente, vem desde 2010 e ganhou fôlego com a aprovação do projeto em uma
lei municipal de incentivo a projetos culturais, no ano passado. Segundo Rui
Paiva, a banda está trabalhando em quatro frentes, “a das composições, isto é,
da banda mesmo, da orquestra que vai ser necessária e o grupo teatral que
encenará a ópera e terá autonomia pra adaptar as composições. Estamos
trabalhando também na captação de recursos, afinal uma ópera como essa não é
barata e pretendemos viajar com ela não somente pelo Pará, mas para fora dele.
O pessoal de fora tem que conhecer o que fazemos e pensamos aqui também”, diz o
baterista ao se referir a alguns dos problemas que serão discutidos, como o
desmatamento feito por grandes madeireiras, poluição, tráfico de drogas e exploração
sexual, seja no interior ou em Belém.
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| Álibi de Orfeu aposta na mistura de mitos amazônicos e a realidade urbana de Belém para criar a primeira ópera rock da Amazônia. Foto: Victor Estácio |
O enredo da
ópera, escrita pelo próprio Rui Paiva, conta a história de Selmita, jovem de 16
anos que sai de um dos “furos” (entradas) do arquipélago do Marajó, interior do
Estado do Pará, em direção a Belém para encontrar uma tia. Desde a viagem,
feita somente de navio, a heroína se vê em meio a embates identitários,
psicológicos e outros que a nova vida na cidade com traços de metrópole incita.
Diversos personagens que estão na ópera são baseados em mitos amazônicos:
Curupira, Iara, Boto, Cobra Grande, entre outros, estão presentes, não de modo
fantástico, mas sim cotidiano, através de releituras e adaptações.
Segundo Rui
Paiva, a ópera terá cerca de onze ou doze canções, como “Verde Mar”, “Chão e
Fé”, “Longe de ti” e “Passou e não me viu”, que inicia com a batida de lundu
marajoara e termina como um hard rock. O videoclipe, lançado em maio deste ano,
possuiu uma boa repercussão e pode ser visto no YouTube. A banda lançará nos
próximos meses outro videoclipe de uma das canções da ópera. Todas as composições
são “criações coletivas”, em que todos os membros da banda interferem e
colaboram na produção das canções. Além disso, as canções podem ganhar
convidados especiais, sejam paraenses ou não, afirma Rui, que tem como amigos
Edgar Scandurra e Frejat.
A previsão é que
o álbum da ópera seja lançado ainda este ano e já mostrará Selmita percorrendo
uma Belém que muitas vezes não se observa, conhecendo, mais que seus pontos
turísticos, a dura realidade de seus problemas. O desfecho da história, no
entanto, ainda é mantido em segredo: “só quando lançarmos vocês vão saber”,
conta misteriosamente Rui Paiva. Resta aguardar para ver e ouvir.

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