quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Banda paraense prepara primeira ópera rock da Amazônia

A relação entre ópera e rock não é nova, mas nem por isso é fácil. Músicos e bandas corajosos já compuseram óperas rock conhecidas pelo mundo afora, como “The Wall”, do Pink Floyd; a sombria “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, de David Bowie; e “Tommy”, do The Who. No Norte do Brasil, uma banda aceitou o desafio de fazer a primeira ópera rock da região: o Álibi de Orfeu. Criada no final da década de 1980, a formação atual do grupo conta com Elaine Valente e Rafael Mergulhão nas guitarras, Sidney KC (baixo), Rui Paiva (baterista e líder da banda, que está desde a primeira formação) e Norah Valente (vocalista), prodígio de 17 anos que desde maio está à frente do Álibi.
A ideia da ópera não é recente, vem desde 2010 e ganhou fôlego com a aprovação do projeto em uma lei municipal de incentivo a projetos culturais, no ano passado. Segundo Rui Paiva, a banda está trabalhando em quatro frentes, “a das composições, isto é, da banda mesmo, da orquestra que vai ser necessária e o grupo teatral que encenará a ópera e terá autonomia pra adaptar as composições. Estamos trabalhando também na captação de recursos, afinal uma ópera como essa não é barata e pretendemos viajar com ela não somente pelo Pará, mas para fora dele. O pessoal de fora tem que conhecer o que fazemos e pensamos aqui também”, diz o baterista ao se referir a alguns dos problemas que serão discutidos, como o desmatamento feito por grandes madeireiras, poluição, tráfico de drogas e exploração sexual, seja no interior ou em Belém.

Álibi de Orfeu aposta na mistura de mitos amazônicos e a realidade urbana de Belém para criar a primeira ópera rock da Amazônia. Foto: Victor Estácio
 
O enredo da ópera, escrita pelo próprio Rui Paiva, conta a história de Selmita, jovem de 16 anos que sai de um dos “furos” (entradas) do arquipélago do Marajó, interior do Estado do Pará, em direção a Belém para encontrar uma tia. Desde a viagem, feita somente de navio, a heroína se vê em meio a embates identitários, psicológicos e outros que a nova vida na cidade com traços de metrópole incita. Diversos personagens que estão na ópera são baseados em mitos amazônicos: Curupira, Iara, Boto, Cobra Grande, entre outros, estão presentes, não de modo fantástico, mas sim cotidiano, através de releituras e adaptações.
Segundo Rui Paiva, a ópera terá cerca de onze ou doze canções, como “Verde Mar”, “Chão e Fé”, “Longe de ti” e “Passou e não me viu”, que inicia com a batida de lundu marajoara e termina como um hard rock. O videoclipe, lançado em maio deste ano, possuiu uma boa repercussão e pode ser visto no YouTube. A banda lançará nos próximos meses outro videoclipe de uma das canções da ópera. Todas as composições são “criações coletivas”, em que todos os membros da banda interferem e colaboram na produção das canções. Além disso, as canções podem ganhar convidados especiais, sejam paraenses ou não, afirma Rui, que tem como amigos Edgar Scandurra e Frejat.
A previsão é que o álbum da ópera seja lançado ainda este ano e já mostrará Selmita percorrendo uma Belém que muitas vezes não se observa, conhecendo, mais que seus pontos turísticos, a dura realidade de seus problemas. O desfecho da história, no entanto, ainda é mantido em segredo: “só quando lançarmos vocês vão saber”, conta misteriosamente Rui Paiva. Resta aguardar para ver e ouvir.

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