O tom épico da faixa-título, que abre o álbum, tratado como uma grande ópera, já é consagrador. É impossível não ficar com a deslumbrante sensação de estar diante de algo magnífico e de grande importância para a história da música mundial. Afinal, é a união definitiva da música pop mundial com a erudita, embrulhada com um refinamento poucas vezes ouvido. Ainda mais nessa nova edição, que conta com orquestração de Stuart Morley (responsável pelo musical “We Will Rock You”), executada pela FILMharmonic Orchestra de Praga, e com percussão ao vivo, ao invés dos sintetizadores e das baterias eletrônicas do álbum original. Há também nova capa e ilustrações.
Na canção, que conta com violinos de Homi Kanga e Laurie Lewis, cello de Deborah Ann Johnston e percussão de Frank Ricotti, “Barcelona” é tratada como uma linda mulher. “I had this perfect dream / Un sueño me envolvió / This dream was me and you / Tal vez está aqui / I want all the world to see / Un instinto me guiaba / A miracle sensation / My guide and inspiration / Now my dream is slowly coming true” (“Eu tive esse sonho perfeito / Um sonho que me envolveu / Nesse sonho estavam você e eu / Talvez esteja aqui / Quero que o mundo todo veja / Um instinto me guiava / Uma sensação milagrosa / Minha guia e inspiração / Agora meu sonho lentamente vai se tornando verdadeiro”). Já “La Japonaise” começa com letra em japonês e possui partes cantadas em falsete por Freddie Mercury e uma doce delicadeza, que contrasta com o tom mais sombrio e desesperado de “The Fallen Priest”, que conta com o piano de Mike Moran e ganhou letra do dramaturgo Tim Rice.
Em seguida, vem a doce “Ensueño”, uma das faixas mais delicadas e tocantes do álbum, toda cantada em espanhol e na qual o contraponto entre as vozes de Freddie Mercury e Montserrat Caballé é deslumbrante e pontuado pelo piano tocado pelo próprio cantor. Essa também é a única faixa que conta com a participação de Caballé na composição, junto com Mercury e Mike Moran, autores de todas as outras. E retoma a temática do sonho: “Volver a vivir / Saber que mi suenyo no esta solo / Alienta em ti / Tu y yo cantando los dos / Yo sonyaba en ser tu mismo mar, / tu mar es puente de unión... / De nuestras almas / Vuelan... / nos llaman... / Al son de eternidad” (“Voltei a viver / Por saber que meu sonho não está só / Está com o teu / Tu e eu cantando, os dois / Eu sonhava em ser mesmo teu mar, teu mar / A ponte de união / De nossas almas / Voltam e nos chamam / Ao som da eternidade”.
“The Golden Boy”, outra canção com letra de Tim Rice, começa tensa, mas, aos poucos, vai se rendendo à doçura dos dois intérpretes e a um apoteótico coral gospel (formado por feras como Madeline Bell, Dennis Bishop, Lance Ellington, Miriam Stockley, Peter Straker, Mark Williamson e Carol Woods), e que conta, inclusive, com uma salva de palmas, e, no final, retorna um pouco ao clima soturno. Outro ápice é a doce “Guide My Home”, que é unida sem interrupção à canção mais conhecida e admirada desse álbum, “How Can I Go On”, que conta com o baixo de John Deacon e aparece em duas versões, a segunda com a participação do violinista David Garrett. O encerramento é com a delicada “Exercises In Free Love” e a épica “Overture Piccante”, que conta com a citação de todas as outras faixas.
Como indica o encarte do CD, a paixão de Freddie Mercury pela música erudita começou quando viu Luciano Pavarotti interpretar “Un ballo in maschera”, de Giuseppe Verdi, na Royal Opera House, em Londres, na Inglaterra, em 1981. Trinta e um anos depois, o álbum “Barcelona” permanece emocionando e esbanjando extremo vigor, como uma obra indispensável de união do rock com a música erudita, algo do quilate, por exemplo, da ópera-rock “Tommy”, realizada pela banda The Who, em 1969. “É, finalmente, o álbum que deveria ter sido. O mundo, sem dúvida, redescobrirá e se apaixonará por tudo isso de novo. A única desvantagem é que o visionário por trás desta obra-prima não está por perto para ouvi-la também”, finaliza Rhys Thomas, no encarte.

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